domingo, julho 06, 2008

I Jornada do Património Mineiro. Comunicações (parte 5)

(continuação do artigo publicado no jornal Região de Rio Maior nº1026, de 6 de Junho de 2008, pág.8)



















QUADRO Nº2. PATRIMÓNIO EM CONTEXTO: INSERÇÕES URBANAS.

O complexo edificado da Fábrica de Briquetes, Receita Exterior e Plano Inclinado de acesso às galerias da Mina do Espadanal, não pode ser entendido como um fenómeno isolado, mas sim enquanto parte de um vasto conjunto patrimonial disseminado no território.

O período mineiro introduz novos ritmos de evolução numa paisagem urbana que se mantinha quase inalterada desde o século XIX.

A imagem que se apresenta em fundo – fotografia aérea da vila de Rio Maior no início dos anos 40 – permite-nos fixar o momento exactamente anterior aos primeiros grandes investimentos do Estado nas Minas do Espadanal. Nas décadas que se seguiram, a edificação de infra-estruturas industriais e habitacionais, bem como a adaptação de construções preexistentes para instalação de actividades sociais da comunidade mineira, deixou uma marca de profundo significado identitário no tecido urbano riomaiorense.

(Apresentou-se em seguida a planta da Vila de Rio Maior no ano de 1968, localizando as edificações urbanas directamente relacionadas com o período mineiro, promovidas pela empresa concessionária, pela autarquia, por instituições de apoio social e por privados).

Inaugurada em Abril de 1945, a linha-férrea Rio Maior – Vale de Santarém, com um imponente cais erguido nas imediações do plano de extracção da Mina, foi uma das estruturas com maior impacto territorial. (Dela resta apenas a memória e fragmentos refuncionalizados do traçado da via).

A Fábrica de Briquetes, erguida entre 1952 e 1955, estabelece-se como edificação emblemática do centro urbano riomaiorense, constituindo até aos nossos dias uma imagem de marca da cidade de Rio Maior.

Em simultâneo com a infra-estruturação industrial, um dos maiores desafios à capacidade de renovação de estruturas ao qual a comunidade local procurou dar resposta eficiente nas décadas de 40 e 50, decorreu do importante aumento populacional em resultado da admissão, num curto espaço temporal, de centenas de operários na exploração mineira – o problema da habitação.

Foram neste contexto inseridos na malha urbana da vila de Rio Maior diferentes conjuntos habitacionais destinados a suprir as dificuldades de alojamento sentidas não apenas pela comunidade mineira: o Bairro Dr. Alexandre Laureano Santos e o Bairro Mineiro do Abum, ambos de iniciativa privada, edificados nas imediações do plano de extracção; a Rua Nova do Gato Preto, promovida em 1950 pela Câmara Municipal em terrenos paralelos à via-férrea; o Bairro do Padre Américo, edificado entre 1952 e 1955 pela Conferência de S. Vicente de Paulo, para alojamento de famílias pobres, e o Bairro Mineiro de Santa Bárbara, edificado em 1959 por iniciativa privada, com apoio da E.I.C.E.L..

A fisionomia e a vivência urbana da vila de Rio Maior foram também marcadas pelo movimento cooperativo e associativo, desenvolvido entre os funcionários da empresa concessionária das Minas do Espadanal.

O Clube de Futebol “Os Mineiros” estabelecerá a sua primeira sede na Rua David Manuel da Fonseca, transferindo-a, em 1947, para edifício remodelado na Avenida Salazar. (O edifício do actual “Fonte-Velha Bar” na Rua Dr. Francisco Barbosa). A prática desportiva da colectividade realizava-se, nas décadas de 40 e 50, no Campo de Jogos da Casa do Povo de Rio Maior (demolido para edificação da Igreja Matriz), transferindo-se, na década de 60, para novo recinto à Pá Ribeira (área onde hoje se localiza o complexo desportivo municipal). Outros serviços desenvolveram a sua actividade em edifícios preexistentes: a Cantina do Pessoal da E.I.C.E.L., instalada na Rua 5 de Outubro, e o Centro de Assistência Infantil, estabelecido no edifício da Casa do Povo de Rio Maior (recentemente demolido).
























Bairro Mineiro de Santa Bárbara. Inaugurado em 1959.

(continua)

COMISSÃO PARA A DEFESA DO PATRIMÓNIO CULTURAL DO CONCELHO DE RIO MAIOR in Região de Rio Maior nº1027, de Sexta-feira 13 de Junho de 2008

I Jornada do Património Mineiro. Comunicações (parte 4)

(continuação do artigo publicado no jornal Região de Rio Maior nº1025, de 30 de Maio de 2008, pág.8)

O dia 25 de Novembro de 1951 estabelece-se enquanto data simbólica do processo de viabilização económica da lavra mineira riomaiorense no pós-guerra, com a deslocação a Rio Maior do Ministro da Economia, Dr. Ulisses Cortês, para visita às instalações da Mina do Espadanal e apresentação do projecto da Fábrica de Briquetes a edificar junto ao Plano Inclinado.














Primeiro plano: Francisco Afonso Vieira, Dr. Ulisses Cortês (Ministro da Economia) e Eng.º Falcão Mena (Director Técnico da EICEL). Fotografia de António Feliciano Jr. 25.11.1951

O sistema produtivo, apresentado pelo engenheiro Luís Falcão Mena, organiza-se em três planos fundamentais: extracção, processamento e transporte do minério. Propõe-se a edificação de uma nova receita exterior e secção de trituração, (na qual se integrará o Moinho de Cilindros exposto na presente Jornada), articulada através de telas transportadoras com as novas secções de ensilagem e pulverização. Desta última distribui-se o minério para dois circuitos integrados de produção de electricidade e secagem.

A central termoeléctrica, composta por duas caldeiras, turbinas a vapor e alternadores (400kw/h) produz a energia necessária ao funcionamento de todo o complexo mineiro e o vapor necessário aos equipamentos de secagem da lignite. A água utilizada no processo de geração de vapor é extraída das galerias através da secção de bombagem e tratamento de águas integrada no conjunto edificado. Na secção de secagem e arrefecimento destaca-se, como peça fundamental, um secador rotativo de 90 toneladas, do qual a lignite, seca e escolhida por um crivo, é exportada para silo seco e para a secção de briquetagem, onde uma prensa com roda de balanço de 12 toneladas produz os briquetes por auto-aglomeração (o projecto prevê a instalação posterior de uma segunda prensa, que não se concretizará). A lignite seca e os briquetes são depois expedidos para a secção de armazenagem e transporte no cais da via-férrea.

A obra obterá o ambicionado aval do Governo, através de despacho do Ministério da Economia, em 1952, autorizando o financiamento em 30000 contos pelo Fundo de Fomento Nacional. No mesmo ano é arrematada a empreitada à firma Sociedade Sanfer Lda., de Lisboa, e têm início os trabalhos de construção, que serão acompanhados com grande interesse pela imprensa local e nacional.

Implantado à boca da mina, em elevação sobranceira ao cais da via-férrea, o conjunto edificado afirma-se enquanto importante peça de arquitectura moderna no contexto regional. Concebido como resposta eminentemente funcional aos princípios técnicos ditados pela cadeia de produção e pela dimensão dos elementos mecânicos, explora a monumentalidade num jogo volumétrico depurado, num cuidado tratamento de alçados e através do uso expressivo do betão enquanto material estrutural.

Símbolo de uma desejada modernidade industrial, a Fábrica de Briquetes da Mina do Espadanal materializa-se numa incontornável presença urbana, com particular significado no alinhamento axial da imponente chaminé da central termoeléctrica com a principal artéria de Rio Maior à época da construção – a Avenida Salazar (actual Rua Dr. Francisco Barbosa).

Em Junho de 1955 tem início a laboração, num investimento que constituirá uma aposta singular de inovação tecnológica no panorama da extracção de carvões em território português.




















Fábrica de Briquetes da Mina do Espadanal. 1955















Roda de Balanço da Prensa de Briquetagem “Clarinha”.
Fotografia de Félix Bragança. Diário Ilustrado 12.07.1958


(continua)


COMISSÃO PARA A DEFESA DO PATRIMÓNIO CULTURAL DO CONCELHO DE RIO MAIOR in Região de Rio Maior nº1026, de 6 de Junho de 2008

sexta-feira, julho 04, 2008

I Jornada do Património Mineiro. Comunicações (parte 3)

(continuação do artigo publicado no jornal Região de Rio Maior nº1024, de 23 de Maio de 2008, pág.8)

Os anos da guerra e a intervenção do Estado.
No início da década de 40, em plena 2ª Guerra Mundial, o Estado é confrontado com a necessidade de incrementar a produção nacional de combustíveis fósseis. Para corresponder às exigências da época, a EICEL e os Serviços Geológicos promovem estudos da bacia de lignites de Rio Maior, elaborados pelos geólogos João Monteiro da Conceição e Georges Zbyszewski, através dos quais se comprova a viabilidade industrial da Mina do Espadanal.

Na sequência dos trabalhos realizados o Governo atribui às minas de Rio Maior um papel de relevância no panorama nacional de produção de combustíveis através da publicação, em 1942, do decreto-lei nº32270, de 19 de Setembro, no qual são definidas as medidas a adoptar para a exploração em larga escala.

É, neste contexto, empreendida uma renovação de equipamentos e infra-estruturas que permitirá, no ano de 1945, a concentração da extracção num único ponto com a inauguração do Plano Inclinado de acesso às galerias “Eng. Cílio Rosa”, a melhoria da qualidade da lignite com a instalação de uma unidade experimental de secagem, segundo invento do engenheiro romeno Gregori Filitti, e a resolução do problema do transporte do minério, com a inauguração da via-férrea de Rio Maior ao Vale de Santarém (Linha do Norte).


























Plano Inclinado de Acesso às galerias da Mina do Espadanal. Fotografia de Félix Bragança. Diário Ilustrado 28.06.1958

Viabilização da lavra no Pós-guerra.
Terminado o conflito e restabelecido o normal fornecimento de carvões importados, o Governo depara-se com uma interrogação decisiva quanto ao futuro a dar ao avultado investimento económico e social realizado nas Minas do Espadanal.

Os anos de 1945 a 1951 decorrem com sucessivas exposições da EICEL à Direcção Geral de Minas e ao Ministério da Economia procurando reforçar os pareceres técnicos que desde a década de 20 apontavam a instalação de uma Central Termoeléctrica à boca da mina enquanto solução viabilizadora da actividade extractiva. Como resultado será emitido despacho favorável pelo Ministério em 1950 que ficará, no entanto, sem efeito devido ao privilégio dado pelo Governo à produção hidroeléctrica.

A empresa pondera ainda como alternativas a instalação de uma fábrica de adubos azotados, estudando uma ligação aos “Adubos de Portugal” que sairá gorada por dissolução desta sociedade, e a instalação de uma fábrica de briquetes que substituísse a unidade piloto de secagem “Filitti”.

A Fábrica de Briquetes.
Em Janeiro de 1951 é tomada a opção definitiva pelo investimento na edificação de uma fábrica de briquetes.
Esta unidade fabril caracterizar-se-á, em traços gerais, por um verdadeiro sistema auto-suficiente de produção de energia para o complexo mineiro e processamento do minério extraído, para uma mais fácil colocação no mercado de combustíveis.

O produto final consistirá na exportação de lignite “tal qual”, após pulverização e secagem, e na produção de briquetes – aglomerados de lignite seca e prensada em volumes prismáticos com uma dimensão de aproximadamente 18x6x5cm, utilizados na alimentação de caldeiras industriais.



Briquete “Rio Maior” para consumo industrial produzido na Fábrica de Briquetes da Mina de Lignite do Espadanal.

Nos meses que mediaram até Novembro de 1951 decorre a elaboração do projecto pelos técnicos da EICEL e da empresa alemã Buckau R. Wolf, após visitas a importantes instalações na Itália e na Alemanha pelo Director-Técnico da empresa concessionária, Eng.º Luís de Abreu Falcão Mena.

(continua)

COMISSÃO PARA A DEFESA DO PATRIMÓNIO CULTURAL DO CONCELHO DE RIO MAIOR in Região de Rio Maior nº1025 de Sexta-feira, 30 de Maio de 2008.

quinta-feira, julho 03, 2008

I Jornada do Património Mineiro. Comunicações (parte 2)

(continuação do artigo publicado no jornal Região de Rio Maior nº1023, de 16 de Maio de 2008, pág.6)

Enquadrado nos princípios de actuação da Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior enquanto projecto fundador de uma renovada leitura, qualificada, das potencialidades do património local, o Estudo do Período Mineiro Riomaiorense vem promovendo o reconhecimento deste legado histórico pelos órgãos de decisão, apoiado num trabalho desenvolvido em estreita relação com as mais credenciadas instituições da área patrimonial.

A comunicação apresentada pelo arquitecto Nuno Rocha na Sessão Pública da I Jornada do Património Mineiro sintetiza os resultados de um projecto de investigação lançado em 2005 e que foi recentemente objecto de publicação em co-autoria com o Prof. José Brandão, nas revistas da Sociedade Espanhola para a Defesa do Património Geológico e Mineiro (De Re Metallica) e da Associação Portuguesa de Património Industrial (Arqueologia Industrial), esta última lançada durante a Jornada.

A apresentação teve como preâmbulo a saudação e agradecimento da presença dos riomaiorenses, entidades locais e antiga comunidade mineira, a manifestação do reconhecimento pelos apoios concedidos desde o início do processo, com particular relevo para os membros da Comissão para a Defesa do Património, Dr. João Afonso Calado da Maia, Sr. José da Silva Pulquério, Sr. Manuel Sequeira Nobre, Prof. António Feliciano Jr. e Dr. João Pulquério de Castro, assim como para a colaboração da Secção de Minas da Associação Portuguesa de Património Industrial com destaque pessoal para o Prof. José Manuel Brandão.

MINAS DO ESPADANAL. HISTÓRIA E PATRIMÓNIO
ARQ. NUNO ALEXANDRE ROCHA



















QUADRO Nº1 PATRIMÓNIO EM CONTEXTO: HISTÓRIA.

Descoberta. Primeiros anos de exploração.
A descoberta e o posterior desenvolvimento industrial das Minas do Espadanal são indissociáveis de dois períodos de crise internacional no século XX: as duas grandes guerras. Em 1915, como resposta ao aumento dos preços dos combustíveis gerado pelas dificuldades de importação de carvões no decurso da I Guerra Mundial, é constituída uma sociedade local por António Custódio dos Santos, Pedro Goucha, Silvino Ramos de Sequeira e João Ramos de Sequeira para abertura de poço de sondagem em afloramento de lignite na Quinta da Várzea.

Custódio dos Santos, homem de muitos ofícios (comerciante, director do Jornal O Riomaiorense, dirigente local do Partido Republicano Evolucionista, etc.), será a personagem fundamental do lançamento da extracção de carvões em Rio Maior. Prosseguindo, após existência efémera da sociedade, os trabalhos de sondagem nas imediações da vila, regista na Câmara Municipal, ainda em 1915, a Mina da Quinta da Várzea e em 1916, as Minas de Lignite de S. Paio e do Espadanal. Associa-se, no ano seguinte, à firma Leites, Sobrinhos & Cª, com o objectivo de dotar as pesquisas com a capacidade financeira e o acompanhamento técnico necessário, resultando deste processo, em 1919, a elaboração do primeiro Plano de Lavra da Mina do Espadanal, da autoria do Eng. Vasco Bramão (concessionário das minas de lignite de Alcanadas e Chão Preto, no concelho da Batalha), que havia assumido, entretanto, a direcção técnica da exploração.

Extracto de peça desenhada do primeiro Plano de Lavra da Mina de Lignite do Espadanal. Eng.º Vasco Bramão. 1919

Em 15 de Setembro de 1920, perante a necessidade de aumento de capitais para a infra-estruturação da extracção mineira, é constituída a Empresa Industrial, Carbonífera e Electrotécnica, Lda. (EICEL), que marcará de forma indelével o progresso económico e social da região durante meio século.

As duas décadas seguintes até 1942 serão, no entanto, caracterizadas por uma significativa instabilidade na lavra da Mina do Espadanal, decorrente da dificuldade de colocação das lignites no mercado de combustíveis, verificando-se uma contínua incerteza quanto à viabilidade do investimento realizado.

(continua)

COMISSÃO PARA A DEFESA DO PATRIMÓNIO CULTURAL DO CONCELHO DE RIO MAIOR in Região de Rio Maior nº1024 de Sexta-feira, 23 de Maio de 2008.

quarta-feira, julho 02, 2008

I Jornada do Património Mineiro. Comunicações (parte 1)

No âmbito da actividade da Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior teve lugar, no passado dia 12 de Abril, a I Jornada do Património Mineiro do Concelho de Rio Maior. Evento promovido em colaboração com a Secção de Minas (GEOMIN) da Associação Portuguesa de Património Industrial (APPI), teve como objectivo central a sensibilização das entidades locais para a necessidade de preservação e refuncionalização do Complexo Mineiro do Espadanal, bem como a divulgação junto da comunidade riomaiorense do valor de um legado fundamental da história contemporânea regional.

O programa de trabalhos da Jornada incluiu uma visita ao conjunto edificado da Fábrica de Briquetes, a abertura de Exposição alusiva à História e ao Património das Minas do Espadanal e o lançamento do vol.3 (2007) da revista Arqueologia Industrial (APPI) dedicado ao Património Mineiro Riomaiorense, reunindo a participação de um quadro de especialistas nacionais na área da salvaguarda patrimonial para uma sessão pública no auditório da Biblioteca Municipal, subordinada ao tema “Património e Desenvolvimento Regional”, que contou com ampla assistência pela comunidade e titulares dos órgãos de decisão locais.

A sessão, com abertura pelo Dr. João Afonso Calado da Maia (membro da Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior) e pelo Dr. Mário Barroqueiro (membro da Direcção da GEOMIN) e mediação pelo Prof. José Manuel Brandão (sócio fundador da GEOMIN e membro da Junta Directiva da Sociedade Espanhola para a Defesa do Património Geológico e Mineiro), estruturou-se em torno de três comunicações: “Minas do Espadanal. História e Património”, pelo Arq. Nuno Alexandre Rocha (membro da Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior), “Os Papéis da Política e da Cidadania no Património Local”, pelo Arq. Jorge Manuel Mangorrinha (membro do Conselho Nacional de Delegados da Ordem dos Arquitectos), e “Recuperação de Espaços Industriais”, pelo Prof. Dr. José Manuel Cordeiro (Presidente da APPI e representante em Portugal do Comité Internacional para a Conservação do Património Industrial, UNESCO).

O corpo de conhecimento que publicamente se consolidou impõe, pela sua relevância para a compreensão da história do século XX em Rio Maior e para o estabelecimento de um quadro de boas práticas de intervenção no âmbito do património concelhio, a divulgação alargada aos derradeiros detentores da memória colectiva local: os cidadãos riomaiorenses.

Com este objectivo tomará forma nos próximos números do jornal Região de Rio Maior a publicação integral dos documentos apresentados no passado dia 12 de Abril, principiando com a síntese do extenso levantamento documental e análise da história e do património edificado em contexto urbano e no couto mineiro, bem como do património imaterial que constitui a memória de gerações de riomaiorenses, que se vem sedimentando no Processo de Estudo e Salvaguarda do Património Mineiro, da autoria do arquitecto Nuno Alexandre Rocha.




















Quadro de Abertura da Comunicação: “Minas do Espadanal. História e Património”, pelo Arq. Nuno Alexandre Rocha.


COMISSÃO PARA A DEFESA DO PATRIMÓNIO CULTURAL DO CONCELHO DE RIO MAIOR in Região de Rio Maior nº1023, de Sexta-feira 16 de Maio de 2008

terça-feira, julho 01, 2008

Património Mineiro na Imprensa Local. Rio Maior Notícias.

Fábrica de Briquetes da Mina do Espadanal.
Património de Interesse Nacional.
(Por António Manuel Rola, Vereador da Câmara Municipal de Rio Maior)

Há muito que se fala sobre este Património Cultural de Rio Maior e da oportunidade e justificação para a sua preservação, recuperação e valorização.
Muitas dúvidas se têm levantado sobre este assunto.
Depois do levantamento e inventário feito pelo Arquitecto Nuno Rocha.
Depois da visita do IPPAR - Instituto Português do Património Arquitectónico.
Depois da visita da DGEMN - Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Depois da petição promovida pela participação cívica da comunidade riomaiorense.
Depois da Conferência sobre Património e Desenvolvimento Regional.
Verifiquei que todas elas foram unânimes em afirmar que a preservação, recuperação e valorização da Fábrica de Briquetes da Mina do Espadanal, é possível, é justificável e é fundamental para a promoção e divulgação da história e cultura de Rio Maior.
Mais, todos consideraram a necessidade deste Complexo Mineiro passar a ter uma Classificação de Património de Interesse Municipal.
Perante estes factos e porque considero a Fábrica de Briquetes da Mina do Espadanal um valor histórico e cultural incontornável do século XX riomaiorense.
Decidi levar este assunto à Reunião de Câmara do dia 21 de Abril, pp. onde apresentei uma proposta para que a Câmara em conjunto com a Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior, elaborassem um documento de proposta de Classificação da Fábrica de Briquetes e Plano Inclinado de Acesso às Galerias da Mina do Espadanal, enquanto Património de Interesse Municipal.
Dado que a resposta do Senhor Presidente da Câmara não foi favorável à minha proposta, argumentando que a Classificação de Interesse Municipal em nada iria beneficiar em relação a possíveis apoios financeiros, aliás pelo contrário traria sim dificuldades.
Assim, e para que seja mais fácil obter-se apoios financeiros para a recuperação do Complexo Mineiro.
Sugiro que o Arquitecto Nuno Rocha, a Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior e a Câmara Municipal, solicitem ao IPPAR, a possibilidade de emitir um parecer que vá no sentido de Classificação de Interesse Nacional, até porque este Património Arquitectónico é único no país.
O Património Mineiro é um símbolo Histórico, a seu tempo um lugar central na valorização da comunidade riomaiorense. Pode ainda ser um, Eixo Estratégico para o Desenvolvimento do Concelho de Rio Maior.
Na defesa do Património Cultural de Rio Maior.

António Rola in Rio Maior Notícias nº64, de 08 a 14 de Maio de 2008

O Património Mineiro na Câmara Municipal

Excerto da Acta nº8/2008: Reunião Ordinária de 21 de Abril de 2008

Intervenção dos Membros do Executivo.

2. O Vereador António Manuel Rola, na sua intervenção, referiu-se às antigas instalações da Fábrica de Briquetes da Mina do Espadanal, salientando que muito se tem falado sobre aquele património ao longo de vários anos. Reportou-se à oportunidade e justificação da sua preservação, recuperação e valorização, referindo que essa é uma temática que tem levantado muitas dúvidas. O Vereador salientou, assim ter assistido a uma conferência sobre aquele tema, tendo ficado esclarecido quanto à possibilidade de recuperação e preservação daquele complexo mineiro, dado que as instituições presentes naquela conferência foram unânimes quanto a essa possibilidade, considerando que aquela recuperação é justificável e fundamental para a promoção e divulgação da historia cultural da comunidade riomaiorense. Mais disse ter ouvido a intervenção do Presidente da Câmara naquele encontro, tendo ficado agradado com a mesma, porque demonstrara interesse na recuperação e preservação daquele espaço. Salientou também ser do conhecimento de todos as condições em que aquele espaço se encontra e, ainda, as dificuldades existentes quanto aos apoios financeiros para recuperação do mesmo, tendo-se reportado aos estudos já realizados ao longo de vários anos, nomeadamente ao parecer emitido pelo IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico) que considera aquele espaço de interesse municipal e ainda, propõe a realização de um Plano de Pormenor contemplando um programa de refuncionalização adequado ao valor histórico, arquitectónico do local.

Face ao exposto propôs que a Câmara Municipal de Rio Maior em conjunto com a Comissão da Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior elaborasse uma proposta para classificação da Fábrica de Briquetes como património de interesse municipal, por achar que a classificação daquele património mineiro será um eixo estratégico para o desenvolvimento cultural e turístico da cidade. Disse ainda que a classificação daquele património como sendo de interesse municipal possibilitará a apresentação de candidaturas a apoios financeiros para a recuperação daquele espaço que faz parte de um entidade histórica do concelho de Rio Maior. Salientando, por fim, a hipótese de se recorrer a parcerias com entidades publicas ou privadas, disponibilizando-se para apoiar a execução de um projecto que considera muito importante para o concelho de Rio Maior.

2.1 O Presidente da Câmara, face ao exposto pelo Vereador, referiu que o facto do IPPAR recomendar que aquele património deva ser de interesse municipal acarreta contrapartidas, uma vez que, se o IPPAR reconhecesse aquele património de interesse nacional o município de Rio Maior não teria de se preocupar com o investimento financeiro que a recuperação daquele património envolve. Assim, o Presidente da Câmara referiu que, o facto da Câmara reconhecer aquele local como de interesse municipal, o mesmo não resolverá nenhuma questão, salientando que o Vereador não percebeu a sua intervenção na já referida conferência, uma vez que ali, referiu existir uma pequena esperança de se vir a conseguir algumas verbas para a recuperação daquele património, mas não pela via da classificação. E salientou o facto daquele investimento não estar previsto no Plano e Orçamento da Câmara Municipal de Rio Maior. Mais disse que a recuperação daquele património poderá ser feita por duas vias, nomeadamente a criação de um museu -hipótese que não tivera acolhimento -ou a criação de um arquivo -sendo esta última hipótese a mais provável. Salientou ainda que a Câmara teria muito gosto em proceder à recuperação daquele espaço histórico, sendo necessário ter alguma imaginação para conseguir apoios financeiros para a execução do projecto. Salientou, ainda, que a Câmara ficará atenta a eventuais oportunidades a nível de financiamentos para recuperação do que for possível recuperar, em parceria com a Comissão da Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior e com o IPPAR, solicitando para isso a colaboração de todos.

2.2 O Vereador António Manuel Rola voltou a intervir quanto ao presente assunto dizendo saber que aquele espaço é de património municipal e que estaria em causa a eventual negociação com uma imobiliária, assunto que fora já discutido em reunião de Câmara. Disse que, já na altura, referira que na sua opinião não interessava quem iria recuperar aquele espaço, mas que a Câmara não poderia era perder o controlo daquelas infraestruturas. No entanto, dado que o Senhor Presidente garantiu que aquele património está salvaguardado e não será colocado em causa, dado o seu valor histórico, não coloca, assim, nenhuma objecção quanto ao não reconhecimento do interesse municipal daquele espaço. Mais salientou que a sua intervenção fora no sentido de salvaguardar aquele espaço para que o mesmo não seja descaracterizado, reportando-se à posição unânime de todas as instituições da especialidade quanto à preservação do mesmo.

2.3 O Presidente da Câmara voltou a intervir, dizendo que a salvaguarda daquele património depende da existência de meios financeiros e não da sua classificação, sendo essa a sua preocupação, salientando que essa salvaguarda não impede a alienação da outra parte do imóvel. Adiantou que, talvez, seja essa aliás a solução financeira para que se possa avançar com aquele recuperação.

sábado, abril 19, 2008

I Jornada do Património Mineiro, na Imprensa Local. Região de Rio Maior

I Jornada do Património Mineiro

Há boas hipóteses de requalificar a Mina do Espadanal.

No sábado, 12 de Abril, no auditório da Biblioteca Municipal Laureano Santos decorreu a Sessão Pública da I Jornada do Património Mineiro. Esta jornada teve como objectivos falar da história e do património das Minas do Espadanal, o papel da política e da cidadania no património local e a recuperação dos espaços industriais e contou também com uma exposição de fotografia e da história do património mineiro.

Na sessão de abertura estiveram presentes João Afonso Calado da Maia, José Manuel Brandão, sócio fundador da GEOMIN e membro da Junta Directiva da Sociedade Espanhola para a Defesa do Património Geológico e Mineiro; o arquitecto Nuno Rocha, impulsionador da Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior; Jorge Manuel Mangorrinha, membro do Conselho Nacional de Delegados da Ordem dos Arquitectos e José Manuel Cordeiro, presidente da APPI - Associação Portuguesa de Património Industrial e representante em Portugal do Comité Internacional para a Conservação do Património Industrial da UNESCO.

José Manuel Brandão referiu três momentos chave no processo das Minas do Espadanal: a actividade industrial exercida e que teve vários impactos na população e no território físico de Rio Maior; o período de vazio, entre o encerramento da mina e o presente em que as autarquias não conseguiram acompanhar os edifícios e infraestruturá-los e o século XXI, em que começa a despertar o interesse por aquilo que se há-de fazer naquele espaço, e é essa a fase em que Rio Maior se encontra agora.

Nuno Rocha passou então a apresentar um excerto da históra das minas, que surgiram e se desenvolveram em dois contextos de crise nacionais e mundiais: as duas grandes guerras. A mina foi registada em 1916 e principalmente entre 1920 e 1942 dá-se a sua exploração. Em 1945 inaugura-se a linha férrea que ligava Rio Maior ao Vale de Santarém. Terminada a guerra suge a questão: "o que fazer com aquele investimento económico e social?" Foi então instalada provisoriamente uma fábrica de secagem da Lignite e em 1950 o Ministério da Econmia autorizou a construção de uma Central Termoeléctrica mas como a empresa já não tinha capacidade, o Estado acabou por não financiar o projecto e a Central viria a ser instalada no Pego. No ano a seguir optou-se pela instalação da Fábrica de Briquetes que foi inaugurada quatro anos mais tarde e que era de uma tecnologia singular em território nacional. Nuno Rocha apresentou também os vários contextos da mina: o contexto urbano, com a apresentação de bairros mineiros e não-mineiros - que tinham como objectivo melhorar as condições de alojamento; o contexto do couto mineiro, que era muitas vezes maior que a pequena vila de Rio Maior da época. O couto mineiro tinha vários pólos: um posto médico, bairro residencial de mineiros e explorações. Foi apresentada a memória colectiva e o impacto social e cultural que foi decisivo na comunidade riomaiorense. Entre 1916 e 1969 Rio Maior foi sujeito à transição de uma ruralidade para um paradigma de modernidade industrial. Em 1940 a vila tinha 6760 habitantes, havia uma ruptura da capacidade de alojamento assim como do Hospital da Misericórdia. Houve também uma dinamização da acção social, cultural e desportiva com a criação, por exemplo, do Cine-clube Riomaiorense, e do Clube de Futebol "Os Mineiros" que mais tarde daria origem ao União Desportiva de Rio Maior. Foi também criado um centro de assistência infantil e uma escola de formação para adultos.

Jorge Manuel Mangorrinha esteve na sessão para falar sobre "questões de salvaguarda e valorização do património". A preservação do património é hoje um factor cada vez menos secundário para as autarquias. Referiu também que alguns países têm património classificado Mundial, inclusivamente Património Mineiro e falou da importância de divulgar nas escolas o património material e imaterial municipal e local. Mangorrinha referiu também que "ninguém ama a sua terra pela sua economia, ama-a pela sua cultura". Na verdade, a cultura é uma alavanca do progresso e origina conhecimento, emprego e qualidade económica.

João Afonso Calado da Maia mostrou-se feliz por se estar a recordar um passado que transformou o concelho de Rio Maior, então vila, na cidade que é hoje.

José Manuel Cordeiro falou sobre a temática dos dois R's: Reabilitar e Reutilizar. Comentou que em Portugal prefere-se derrubar, destruir e construir de novo do que requalificar. A Fábrica de Briquetes do Espadanal pode ser reabilitada sem grande esforço, "basta um pouco de imaginação". Um edifício reconstruído é menos dispendioso e torna-se num ponto de atracção e pode ser reutilizado, respeitando os esquemas originais "para se poder imaginar as funções de actividade do passado", e referiu até que "promover a salvaguarda da preservação da Fábrica de Briquetes é irreversível. A médio prazo poderemos voltar a assistir à inauguração da fábrica recuperada".

Terminadas as apresentações foi o período de debate. Luis Faria Ribeiro, filho de mineiro, disponibilizou-se para contar histórias, uma vez que sabe muito sobre a mina. Pelo cntrário, Maria Luísa Rodrigues, presidente da Associação Portuguesa de Geoturismo, não sabe nada sobre a mina mas apesar disso também se disponibilizou para apoiar no que fosse preciso.

O processo em estudo pelo arquitecto Nuno Rocha tem como objectivo a recuperação do Património Mineiro. Foram apresentadas propostas à Câmara Municipal de Rio Maior, sendo objectivo que haja um vector científico - centro de estudos e investigação científica e Ciência Viva.

Na sessão de encerramento esteve presente Carlos Nazaré Almeida, presidente da Câmara Municipal de Rio Maior, num momento em que foi apresentado o volume 3 da revista "Arqueologia Nacional", da APPI, que dedica a capa, com uma magnífica fotografia da Fábrica de Briquetes, ao Património Mineiro Riomaiorense.
Carlos Nazaré Almeida referiu que este património é importante para a região e o País e que tem possibilidade de ser requalificado. Gorada a hipótese de o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa ficar em Ota, o Governo antecipa alguns apoios e a possibilidade de a Mina ficar como Arquivo Municipal foi uma aposta bem acolhida pelo Governo. Há alguns projectos a concluir, pelo que o presidente pediu "compreensão", mas existe viabilidade para recuperar aquele espaço.

O presidente da câmara, que já de manhã, tinha estado na Biblioteca Dr. Laureano Santos, para se inteirar se estava tudo pronto para a Jornada que ali se iria desenrolar, e que contava participar apenas mais para o fim da tarde dados alguns compromissos que tinha, acabou por ficar para uma reunião privada entre a APPI, a GEOMIN e o Centro de Estudos Riomaiorenses durante a qual, tendo sido convidado a intervir, declarou o interesse do seu executivo na requalificação da Mina do Espadanal, manifestando "a disponibilidade da Câmara Municipal de Rio Maior para encontrar soluções de salvaguarda de um património que, reconhecemos, tem interesse".
Mas "não nos interessa preservar aquele património só por preservar: interessa-nos, sim, preservá-lo numa óptica da sua rendibilização e valorização, e de desempenho de funções que possam contribuir para a sua sustentabildade, quer pela própria recuperação do edifício em questão quer pela potenciação do desenvolvimento de outros âmbitos naquele espaço", sublinhou o autarca.
Apesar de não perder de vista os constrangimentos financeiros com que o município se debate, Carlos Nazaré Almeida garantiu que "a câmara está empenhadíssima e começa a vislumbrar uma réstea de esperança e de expectativa de encontrar soluções para a preservação do património mineiro, que passam pelos fundos comunitários - estamos a prosseguir esse objectivo -, e poderão passar por parcerias público-privadas, o que é uma perspectiva complementar que pode viabilizar o nosso objectivo".
O presidente da câmara felicitou o Centro de Estudos pela iniciativa da Jornada e saudou e agradeceu a presença nas mesmas das entidades de relevo cultural na área do património mineiro.

Ainda de manhã foi efectuada uma visita aos edifícios da mina.
A exposição, que inclui a passagem de um mini filme que documenta parte de uma procissão em honra de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros, que saía do Espadanal em direcção à boca da mina, e ainda alguns objectos da época e até o que resta de uma máquina trituradora, pode ser visitada até este fim-de-semana.


Zélia Vitorino, C.M. in Região de Rio Maior, nº 1019, de 18 de Abril de 2008.

I Jornada do Património Mineiro, na Imprensa Local. Rio Maior Notícias

I Jornada do Património Mineiro do Concelho de Rio Maior apresentou história e riqueza do seu subsolo e defendeu a sua preservação e recuperação.

Promovida pela Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior (CDPCCRM) realizou-se no passado sábado, dia 12 de Abril, a I Jornada do Património Mineiro do Concelho de Rio Maior.

Esta acção efectuou-se no âmbito do Processo de Estudo e Salvaguarda do Património Mineiro Riomaiorense como resultado da colaboração estabelecida com a Secção de Minas (GEOMIN) da Associação Portuguesa de Património Industrial (APPI) e principiou pelas 10 horas com a recepção aos membros da APPI-GEOMIN e convidados, na Biblioteca Municipal Laureano Santos.

Após uma curta reunião entre elementos das duas instituições, todos os presentes se deslocaram para o Espadanal a fim de visitarem a antiga Fábrica de Briquetes, palavra de origem francesa formada a partir de "brique" - tijolo. Os briquetes eram aglomerados de carvão reduzidos a pó, parecidos com pequenos tijolos, e utilizados como combustível. Tiveram uma grande procura após a Segunda Guerra Mundial devido à crise energética que se seguiu ao conflito. Com o correr dos anos as fontes de energia voltaram a ter o petróleo como principal elemento e os briquetes acabaram por desaparecer do mercado, dando origem ao termo da exploração mineira, ao encerramento da fábrica e ao desaparecimento dos mineiros, que passaram a empregar-se noutras actividades. Alguns abandonaram mesmo Rio Maior.

À tarde, de novo na Biblioteca Municipal e no seu Átrio foi inaugurada uma exposição fotográfica alusiva ao Período Mineiro, na qual se ilustrava o trabalho árduo das pessoas que trabalhavam na mina de carvão (lenhite), aspectos da Fábrica de Briquetes e um filme no qual se registou os passos de uma procissão em honra de Santa Bárbara, a Padroeira dos Mineiros, efectuada em redor da mina.

No Auditório da Biblioteca, teve seguidamente lugar uma Conferência cujo tema aglutinador tinha por título "Património e Desenvolvimento Regional" e na qual participaram vários oradores: Nuno Alexandre Rocha, membro da Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior, discursou sobre as "Minas do Espadanal, História e Património; Jorge Manuel Mangorrinha, membro do Conselho Nacional de Delegados da Ordem ds Arquitectos, abordou "Os papéis da Política e da Cidadania no Património local"; José Manuel Cordeiro, presidente da APPI e representante em Portugal do Comité Internacional para a Conservação do Património Industrial, da UNESCO, falou sobre a "Recuperação de Espaços Industriais".

Moderou esta Conferência José Manuel Brandão, sócio fundador da GEOMIN e membro da Junta Directiva da Sociedade Espanhola para a Defesa do Património Geológico e Mineiro.

Fizeram também parte da Mesa, Calado da Maia, membro da Comissão para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Rio Maior, e Mário Barroqueiro. Seguiu-se um curto período de debate. Entretanto chegou à sala o Presidente da Câmara Municipal de Rio Maior, Carlos Nazaré, que num breve improviso saudou todos os presentes e agradeceu o interesse manifestado pelo Património Riomaiorense.

De salientar a presença de alguns antigos mineiros, nesta Conferência.

Para finalizar a sessão procedeu-se ao lançamento do voume 3 (2007) da Revista "Arqueologia Industrial" dedicado ao Património Mineiro Riomaiorense.

Henrique de Oliveira in Rio Maior Notícias nº61, de 17 a 23 de Abril de 2008.

sábado, abril 12, 2008

I Jornada do Património Mineiro do Concelho de Rio Maior














































01. Abertura da Exposição sobre a História e o Património das Minas do Espadanal; 02. Visita ao Complexo Mineiro do Espadanal; 03. Sessão Pública: Património e Desenvolvimento Regional.

Fotografias 1 e 2 gentilmente cedidas por GEOMIN. Fotografia 3 gentilmente cedida pelo Sr. Casimiro Lopes.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Ministério da Cultura subscreveu Valor Simbólico e Identitário da Fábrica de Briquetes da Mina do Espadanal




















Na sequência de visita ao Complexo Mineiro do Espadanal pelo Deputado à Assembleia Nacional, Miguel Tiago, foi apresentado, a 12 de Junho de 2007, requerimento ao Governo através do Ministério da Cultura para que informasse sobre as medidas previstas para a contemplação do referido complexo como património arquitectónico e histórico do Concelho de Rio Maior e do País.
Em resposta subscrita pelo chefe de gabinete da Sr.ª Ministra da Cultura, a 11 de Setembro de 2007, sublinha-se “um valor simbólico e identitário da Fábrica de Briquetes para Rio Maior, ao ponto de o ex-IPPAR haver proposto a sua classificação como Imóvel de Interesse Municipal”.

O documento emitido termina com a definição da necessidade de estabelecimento de critérios rigorosos num processo “que deverá ter por base o conhecimento adequado da história e evolução do lugar, da articulação havida entre os diferentes edifícios e o actual estado de conservação, de modo a poderem fundamentar e justificar convenientemente as opções de intervenção que vierem a ser adoptadas.”

Enviado para conhecimento da Comissão para a Defesa do Património Cultural de Rio Maior, foi este documento recentemente apresentado à Câmara Municipal de Rio Maior em paralelo com uma renovada proposta de cooperação cívica tendo como objectivo a Valorização do Património e da Identidade concelhia.

In Região de Rio Maior nº 1009, de Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

quarta-feira, dezembro 26, 2007

A Memória dos Derrubados


































Edifício de Habitação no Largo do Gato Preto. (Início do Séc. XX - 26.12.2007)
Fotografia de época (anterior a 1931) in DUARTE, Fernando, História de Rio Maior. Rio Maior: Edição do autor, 1979, p.125

sexta-feira, setembro 21, 2007

sábado, junho 16, 2007

Património Mineiro na Imprensa Local. Região de Rio Maior.





















Futuro do complexo de edifícios da Mina do Espadanal.
PCP vai questionar Ministério da Cultura.

Para se inteirar in loco da problemática quanto ao futuro do que resta do património edificado do complexo industrial da Mina do Espadanal, Miguel Tiago, deputado comunista à Assembleia da República esteve na passada segunda-feira, dia 11, na cidade de Rio Maior onde reuniu com membros da Comissão para o Estudo, Defesa e Valorização do Património Cultural e Natural do Concelho de Rio Maior e visitou a fábrica de briquetes acompanhado pelo presidente daquela comissão, arquitecto Nuno Rocha e por Verde da Costa, Augusto Figueiredo e Alice Esteves, dirigentes concelhios do PCP.

Esperava poder discutir o assunto com o presidente da edilidade, mas Silvino Sequeira estava para Lisboa, no debate sobre a localização do novo aeroporto, precisamente na Assembleia da República. Contudo "o Grupo Parlamentar anunciou à câmara municipal que voltará a procurar um espaço para poder discutir com a autarquia este problema", declarou o deputado na conferência de imprensa concedida no final da visita.

Miguel Tiago entende ter havido, agora, recusa da câmara em fazer essa discussão e em acompanhar a visita, vendo, ao contrário, na comissão, toda a abertura.
Para o deputado, o património edificado em causa "é parte da matriz de uma altura do desenvolvimento de Rio Maior no plano social, industrial e cultural e que ainda hoje molda e tem raízes naquilo que é a cultura das populações locais", pelo que, "por este valor patrimonial imaterial que tem e pelo facto de ser também qualificado, no plano material, como uma obra de valor arquitectónico reconhecido, não só pelas estruturas dos arquitectos portugueses mas também pelo próprio IPPAR justificaria, neste dois grandes planos, que houvesse uma intervenção no edifício".

Invocando o parecer do IPPAR que define este património como sendo de interesse municipal, Miguel Tiago conclui haver "um entrave da parte da autarquia que provavelmente se prende com a especulação imobiliária", da qual as próprias autarquias são vítimas, uma vez que "as políticas de direita dos governos vão no sentido de as castrar nas suas possibilidades de ordenamento do território, nomeadamente pela via do estrangulamento financeiro, pelas imposições na gestão patrimonial, etc., e que depois, quando encontram nas autarquias aliados a essa política, obviamente que resulta na degradação paulatina da infra-estrutura - e julgamos que é perante uma destas situações que estamos", considerou o deputado, assegurando que "o Grupo Parlamentar do PCP vai questionar o Ministério da Cultura sobre que medidas pensa tomar para salvaguardar este património", tanto mais que uma intervenção que permita reabilitar o complexo para fins museológicos, deverá ser demasiado dispendiosa para que seja assumida unicamente pelo município.


Carlos Manuel in Região de Rio Maior, nº975, de 15 de Junho de 2007.

quinta-feira, junho 14, 2007

Património Mineiro na Imprensa Regional. O Ribatejo

Mina ao abandono

PCP. Deputado Miguel Tiago vai questionar Governo sobre o futuro do abandonado complexo mineiro.

O complexo mineiro do Espadanal, em Rio Maior, foi em tempos uma fonte de riqueza do concelho, chegando a empregar mais de 1500 pessoas (1). A extracção de carvão acabou e hoje o edifício industrial está ao abandono, servindo de local de armazenamento de velharias da autarquia riomaiorense, que adquiriu o espaço há cerca de seis anos e até hoje não lhe deu outro destino.

O deputado Miguel Tiago, do PCP, visitou o complexo na passada semana e, no fim da visita, disse que pretende questionar o Ministério da Cultura sobre o futuro deste espaço. Refira-se que o imóvel está inventariado pela Ordem dos Arquitectos, no Inquérito à Arquitectura em Portugal no Século XX, e foi reconhecido pelo IPPAR como tendo interesse municipal.

Segundo o deputado, este espaço poderia ser aproveitado para a construção de um museu do mineiro ou funcionar como espaço museológico municipal. O deputado propõe ainda a utilização como centro tecnológico ou centro de ciência viva dedicado ao sector da extracção de minérios. "Este espaço é a matriz de uma época de desenvolvimento de Rio Maior e não pode ser destruído", afirmou, frisando que "só o interesse da especulação imobiliária justifica o abandono". O deputado diz ainda que a recuperação patrimonial do espaço "não invalida que o espaço envolvente seja aproveitado para área habitacional ou comercial". Refira-se que toda a área tem um total de 11 hectares (2).

Durante a tarde, Miguel Tiago reuniu com alguns membros da Comissão para o Estudo, Defesa e Valorização do Património Cultural e Natural do Concelho de Rio Maior, um grupo de cidadãos que defendem a reconversão do espaço em museu ou centro tecnológico.

"Preservar só a chaminé não ensina nada às novas gerações porque assim o complexo deixa de funcionar como um todo", frisou o deputado Miguel Tiago, crticando a "atitude de desprezo da autarquia" e afirmando que "a Câmara só quer ter um encaixe rápido de capital e não promover o desenvolvimento sustentável deste espaço".

Câmara está a estudar recuperação em conjunto com o IPPAR

Silvino Sequeira, presidente da Câmara de Rio Maior, diz que para o complexo mineiro está prevista uma intervenção "em colaboração com o IPPAR". O autarca disse à Lusa que esta recuperação prevê um gasto de "cerca de dois milhões de euros" e que não poderá ser custeada apenas pelo município.

In O Ribatejo online
Notícia completa in O Ribatejo nº1128, de 15 de Junho de 2007

Notas: (CPDP)
(1) O valor apresentado de 1500 pessoas é referente ao afluxo de mineiros e famílias registado na década de 40, tal como descrito na imprensa da época, e correspondendo de facto ao aumento populacional registado na vila de Rio Maior no decénio de 1940 a 1950.
(2) A soma da área das parcelas do antigo couto mineiro do Espadanal, adquiridas pela Câmara Municipal de Rio Maior em 1999, perfaz um total de 110.380m2. O prédio urbano no qual se implanta a Fábrica de Briquetes compreende uma área de 26.000m2.

sábado, maio 12, 2007

Património Mineiro e Industrial em Rio Maior . Parecer do IPPAR (Partes 4 e 5)

IV. Importância patrimonial.

4.1. Mina/ Fábrica de Briquetes.

a) A fábrica de briquetes é o mais importante testemunho material da actividade técnica da mina, correspondendo a um período de afirmação da indústria por parte do estado e a um relançamento da própria economia da mina.
b) A sua relação com a cidade é inequívoca (5) quer na sua implantação a uma cota mais elevada, quer na sua ligação axial com algumas das vias de circulação, perspectiva hoje um pouco interrompida com as novas construções e soluções urbanas implantadas.
c) O edifício ou conjunto fabril, não podendo ser dissociado do fenómeno geológico e territorial da mina, representa um dos momentos mais singulares para Rio Maior na afirmação de uma arquitectura industrial coeva aos princípios de uma modernidade que se revê em premissas funcionais e formais reveladas na sua geometrização de formas puras como resposta a uma função puramente fabril.
d) A fábrica de briquetes, por outro lado, simboliza, ainda para Rio Maior um momento maior da sua identidade mais recente, assente nos trabalhos da mina que decorreram ao longo de grande parte do século XX e que criaram uma fenomenologia social intrínseca à própria cidade.
e) Mesmo a nível nacional a fábrica de briquetes constitui um exemplo único, quer na sua relação com a mina, quer na sua materialização e funcionalidade.









(5) Ver ficha de inventário realizada pelo arquitecto Nuno Rocha, Junta de Freguesia de Rio Maior.

4.2. A Moagem.

a) A moagem Maria Celeste é um dos exemplos do património industrial mais significativos de Rio Maior, representando um momento de modernização da forte tradição moageira dependente de princípios funcionais mais ancestrais, reconhecidos nos moinhos de água ou azenhas, e que a própria moagem na sua manifesta actualização vai incorporar parcialmente.
b) A moagem cristaliza um tempo técnico, construtivo e formal reconhecido na identidade do lugar e na manutenção desses valores aliados à sua qualidade e autenticidade indiscutíveis. A própria incorporação e manutenção do sistema energético inicial ampliam o seu valor patrimonial, bem como a manutenção e integridade do programa inicial, da volumetria e da sua linguagem formal.
c) O contexto rural, a relação e diálogo funcional da moagem, plenamente assumida com o rio e com o espaço de hortas mais vasto, mantendo um espírito coevo dos anos trinta releva, igualmente, a sua importância patrimonial.











V. Salvaguarda.

a) Tanto a fábrica de briquetes como a moagem devem de ser classificadas como imóveis de valor municipal.
b)
A manutenção destas duas evidências materiais acrescenta valor identitário e exemplifica, qualificadamente, fenómenos de arquitectura e património industriais e mineiro reveladores da história do século XX da cidade e também do país. A sua incorporação no futuro desenvolvimento urbano só poderá, assim, qualificar pela diferença e pela qualidade, o tecido urbano de Rio Maior, acrescentando o valor de uma memória colectiva que é de todos.
c) A perpetuação da fábrica de briquetes que, certamente, terá um programa de refuncionalização condigno com a história do local deverá de ser desenvolvido com uma atenção especial para o contexto envolvente, ainda referente à área mineira, desejando-se a realização de um plano de pormenor para o conjunto, que qualifique e redimensione, de novo, esta área extremamente importante para a cidade.
d) Os valores descritos e referentes à moagem Maria Celeste devem de ser igualmente salvaguardados, não devendo deixar-se perder toda a aura que o local emana de um tempo técnico e fabril associado aos elementos mais perenes da natureza, como o rio.

Lisboa, 5 de Julho de 2006
A técnica superior
Deolinda Folgado


Nota Final: (CPDP)

Em face do risco efectivo de degradação irreversível do Património Mineiro Riomaiorense e da sugestão veiculada pelo executivo do Município de Rio Maior, de preservação redutora de dois elementos simbólicos – a “chaminé da mina” e a entrada do plano inclinado –, tomou forma a necessidade de propor, de acordo com a lei nº107/2001, de 8 de Setembro, a abertura de um processo de classificação informado pelo volume de conhecimento existente sobre o período mineiro e sublinhado pelo documento cuja apresentação se conclui no presente número.
Sob iniciativa do técnico promotor do processo de estudo do património arquitectónico riomaiorense, e subscrita pela Junta de Freguesia de Rio Maior foi a proposta apresentada em Setembro de 2006 não se obtendo resposta da parte do Município.
Após previsão, em orçamento municipal para 2007, da venda dos terrenos do antigo complexo mineiro, adquire especial pertinência a sensibilização dos responsáveis autárquicos para a criação dos instrumentos legais de preservação da integridade do mais significativo conjunto patrimonial do século XX local.
A Petição pela Classificação do Património Mineiro surge assim enquanto procura de uma demonstração significante do empenho cívico da comunidade riomaiorense na necessária valorização local de um conjunto edificado reconhecido pelas mais credenciadas entidades nacionais.

Pela Comissão: Nuno Alexandre Rocha, João Afonso Calado da Maia, António Feliciano Jr., José da Silva Pulquério, Manuel Sequeira Nobre, João Pulquério de Castro, Eva Raquel Neves.

In Região de Rio Maior nº970, de 11 de Maio de 2007

sábado, maio 05, 2007

Património Mineiro e Industrial em Rio Maior . Parecer do IPPAR (Parte 2, final; Parte 3)

II. Mina (continuação)

1.2.1. Fábrica de briquetes.

a) A fábrica de briquetes é a evidência material de maior significado patrimonial que teimosamente subsistiu a esta negligência da memória, embora o seu estado de conservação não seja bom e a sua refuncionalização, ausência de manutenção e a remoção de todo o equipamento técnico ou funcional tenham deixado um espaço ferido na sua essência funcional e integrador de uma memória de trabalho singular. Hoje temos um conjunto que, apesar de não ter problemas estruturais, sofreu já algumas pequenas intrusões ou adaptações dependentes do seu reuso como oficinas ou armazéns camarários.

b) A fábrica de briquetes não pode ser entendida como um edifício isolado que corresponderia à fase efectiva da obtenção dos briquetes. Localizada junto à entrada da galeria da mina do Espadanal, a sua implantação é indissociável da fase inicial da extracção do minério e do sequente processo de tratamento do mesmo. Integradora de um conjunto de pequenos edifícios articulados por um característico sistema de telas transportadoras assentes em estruturas de betão armado, a fábrica incorpora o sistema de ensilagem, a área da central, da obtenção do produto e o antigo cais da via férrea, hoje já desaparecido para dar lugar a um complexo multiusos. Temos, assim, a fase da extracção/ ensilagem (em dois momentos) / do fabrico/ da expedição.

c) Do conjunto destaca-se e impõe-se o edifício que integrava a central, as bombas, o secador e a prensa, ao qual se poderá chamar a fábrica, propriamente dita (v. planta 05). Intrinsecamente associado à rede de transportadores aéreos de minério, que lhe conferem parte da sua idiossincrasia plástica e funcional, o edifício sobrevive isoladamente como peça arquitectónica de cariz puramente funcional. Respondendo a pragmáticos desideratos produtivos e energéticos o projecto, provavelmente elaborado pelo gabinete de desenho da EICEL, não deixaria contudo de integrar as preocupações em instalar máquinas de enormes proporções provenientes da Alemanha, onde este tipo de fábricas se encontrava associada às minas, de modo a rentabilizá-las. Pode colocar-se a questão se a importação da Alemanha do modelo de fábrica, das máquinas, não implicaria também a aplicação de um desenho standard já existente e que respondesse economicamente ao fim produtivo.

d) Composta por dois volumes paralelepipédicos formando um L, a gramática arquitectónica da fábrica de briquetes reconhece-se na plasticidade permitida pela utilização dos novos materiais de construção, revelada nos volumes puros, na sua geometrização e numa fenestração que rasga verticalmente a horizontalidade dos dois corpos integradores da central termoeléctrica e da prensa, os dois vãos de maior dimensão.











e) A racionalidade presente nas singulares fases de fabrico é evidente nos dois volumes puros que na sua relação com a cidade ainda impõem um sinal de modernidade formal e civilizacional construído nos idos anos cinquenta do século XX, à luz das medidas de desenvolvimento e fomento económico existentes durante o Estado Novo.


III. Moagem.

a) A Moagem Maria Celeste tem a sua data de inauguração para o ano de 1932, representando um momento de afirmação da modernização da indústria moageira de Rio Maior, sentida desde meados do século XIX nas grandes cidades como Lisboa ou Porto.

b) Inserida num contexto de cariz rural, esta moagem localizada no centro da cidade, sobrevive numa autenticidade formal, tipológica e de relação com o espaço envolvente a uma alteração rápida inerente ao crescimento dos centros urbanos.

c) Indissociável do rio, que a viu nascer, a moagem Maria Celeste corresponde a uma tradição funcional mais antiga deste curso de água. Aí se implantaram inúmeros moinhos de água, provavelmente de rodízio. Esta moagem assenta também ou poderá integrar um antigo moinho, pertença da família, sobre o qual edificou um sistema moageiro ainda dependente da energia hidráulica, fenómeno incomum, numa época em que a electricidade, mesmo em locais mais distantes da capital, começava a despontar nas indústrias mais modernas. A presença de um antigo moinho, o saber de gerações assente na força da energia obtida através da água, foram certamente condicionantes na manutenção de uma mesma solução energética ainda que integrando inovações técnicas.

d) Funcionalmente a moagem incorpora a casa do proprietário, ainda hoje habitada pela descendente, o escritório, um local de vendas, de armazenamento, a área energética e a de fabrico de farinha, existindo ainda um volume arquitectónico singular correspondente a um depósito de água.

e) Formalmente a moagem Maria Celeste aproxima-se de alguma linguagem Déco, revelada pelo tratamento formal dos amplos janelões. Contudo, esta assumpção formal desvincula-se do seu sistema construtivo interno caracterizado por soluções mistas – incorpora materiais de construção de ponta para o século XIX – colunas e vigas de ferro, sendo a pavimentação em madeira.

f) Quanto ao equipamento tecnológico, subsiste na área referente à obtenção de energia, tendo as restantes máquinas operadoras sido destruídas após pouco tempo da sua inauguração, provável consequência do condicionamento industrial. São ainda visíveis os veios de transmissão correspondentes à forma mecânica da propagação da energia.












In Região de Rio Maior nº969, de 02 de Maio de 2007